sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Nova Zelândia: pequena em tamanho, grandiosa no leite


Imagine um país de polícia sem armas; casas sem grades; estradas sem buracos; polítca sem corrupção; chefe de Estado sem motorista; documentos sem carimbo; aluguéis sem avalistas; menos de dez vezes entre o maior e o menor salário; estradas municipais rurais asfaltadas; nenhum papelzinho no chão, apenas por educação; uma das melhores educações escolares do mundo e tudo isso construído dos anos 1830 para cá, quando se iniciou sua colonização européia.

Agora imagine isso tudo num cenário cheio de cores, sem poluição, de pastagens verdes, montanhas lindas com neve no topo todo o ano, rios límpidos, ausência de cobras, mosquitos, mosca do berne ou dos chifres, carrapato, ou mesmo abigeato. Essa é a Nova Zelândia! Pouco menor que o Rio Grande do Sul, com apenas 4,5 milhões de habitantes, mas que exporta 1/3 de todos os lácteos exportados no mundo, sem subsídios e deixando qualidade de vida aos produtores e em toda a cadeia.

Abaixo um resumo dos principais acontecimentos, dos primórdios à atualidade, que moldaram o leite no país (seleção de pontos pelo autor) e, na sequência, uma seleção de fatores que caracterizam seu perfil exportador-competitivo, com alguns comentários.






Figura 1. Cena colonial dos primórdios do leite nos anos 1830 na Nova Zelândia.



Figura 2. Capa de uma revista de 1972 sobre salas de ordenha na NZ. Em toda a edição aparecem carrocéis já com vários anos de uso. No Brasil, estão sendo recém introduzidos (Imagem: W. Beskow).

Dois tipos de produtores

A grande maioria dos produtores (~95%) produz leite sazonalmente (seasonal dairy), cujo leite é exportado. Os demais, produzem como no Brasil, com vacas em lactação todo o ano, para consumo doméstico do país (town milk dairy). Por que sazonal? Aqui está o grande segredo da Nova Zelândia que a faz competitiva e distinta do mundo todo: o ajuste da curva de oferta anual de forragem (taxa de crescimento da pastagem) com a curva de demanda alimentar do rebanho (Figura 3). Tenta-se ajustar o pico da oferta (primavera) com o pico da demanda do rebanho. Sincronizando-se naturalmente as parições, consegue-se isso. O rebanho é inseminado em novembro/dezembro (10-12 semanas), pari em agosto/setembro e é secado em abril, quando começa o frio e a faltar pasto.



Figura 3. Rebanho em pico de lactação em outubro na Nova Zelândia.

Os produtores sazonais recebem por kg de gordura+proteína bruta (GPB), que na NZ se convencionou chamar de "milksolids" (junto), abreviado em inglês como MS (não aconselho seu uso em português por confundir-se com kg de matéria seca). Uma vaca média deles tem 8,4% de GPB (a brasileira cerca de 6,6%). Portanto, o produto da vaca deles, o sistema de produção e de pagamento são diferentes dos nossos. São fruto de uma nação que precisa exportar 95% do que produz e com lucro, ano após ano, sem ajuda de governo, com mão-de-obra cara e escassa, sem produzir soja alguma, nem milho grão.

O sistema de parceria 50:50

Para vender leite em uma cooperativa como a Fonterra, é necessário comprar as cotas-partes de sócio na quantidade de uma para cada kg pretendido a venda no ano. Um produtor médio tem cerca de 390 vacas, produzindo cerca de 130.233 kg por ano de GPB a NZ$4,52/cota e R$1,70/NZ$, temos que um produtor típico tem R$1.000.715,00 em cotas (note: 1 produtor = 1 voto, por princípio do cooperativismo). Com toda essa necessidade de capital, como começar? E cadê dinheiro para terra, vacas instalações etc.?

A solução que há décadas foi criada por eles é a parceria pecuária chamada de "50:50 sharemilking". Neste o produtor se aposentando, dono de terras e cotas, junta-se a um casal jovem, com vontade de crescer que só necessita dar um jeito de comprar as vacas e saber trabalhar. O proprietário entra com terra, instalações, manutenções e cotas. O parceiro com vacas e todo o serviço, com prioridade de compra da terra e das cotas.

Uma precificação da frente para trás

No Brasil insiste-se em achar que países que são fortes no leite têm subsídios, facilidades de seus governos e medidas desleais de concorrência. A NZ não tem nada disso desde 1984. O preço do leite é dado totalmente pelo sucesso e preço das vendas no mercado internacional. A cooperativa faz previsões, fecha contratos futuros, estima preços de fechamento para junho de cada ano e paga os produtores com base na forma de adiantamentos a serem acertados no final da safra (que é também final do ano fiscal nacional). O preço final é o faturamento, menos os custos totais da Fonterra, menos o capital a ser reinvestido, aprovado em assembléia. As sobras são divididas anualmente, adicionadas ao preço por kg de GPB no pagamento final.

Por que lá isso funciona? Primeiro, o produtor tem, de fato, participação no negócio (em capital e, consequentemente, presença física ativa). Ele é dono e dirige o negócio, que por sua vez é transparente, cheio de informações e prestação de contas. Você colocaria R$1 milhão num negócio e daria as costas ou sairia a falar mal sem contribuir? Não.

Segundo, o produtor se sente ele mesmo exportador. Ele conhece e acompanha o mercado internacional e sabe quando vai perder ou ganhar mais pelos preços e volume que sua empresa está conseguindo colocar no mercado. É simples! Aqui temos o oposto. O produtor não tem esse canal, as cotas são simbólicas, o preço é complexo (às vezes totalmente disconexo do retorno ao sócio e dono do negócio), temos uma história de tabelamento até 1990, protecionismo vigente e várias outras distorções. Tudo isso num ambiente que acha que luta pelo setor, mas que na verdade pereniza nossas ineficiências.

Visivelmente, eles têm um sistema mais simples do que temos aqui e, portanto, mais fácil de administrar. No entanto, eles o desenharam assim. Ninguém deu nada pronto para a Nova Zelândia. O setor lácteo é tão importante para essa nação, apesar de grande produtora de muitas outras coisas (carne, lã, frutas temperadas, vinhos, cereais, tursimo, serviços, tecnologia agrícola, etc.) que responde por perigosos 25% do PNB (produto nacional bruto).

Um paraíso

Sem dúvida um lugar lindo, agradável, onde tudo parece funcionar e fluir. É claro que, como todo o lugar, também enfrentam grandes desafios: secas, frio (neve no sul), terremotos, distância dos mercados consumidores, concorrência mundial, subsídios dos concorrentes, barreiras comerciais, alto custo da mão-de-obra e da terra etc.

No entanto, a atitude do neozelandês é de estudo dos problemas e oportunidades, buscando superação e vitória pela via mais curta, mais simples, barata e rápida. Valorizam qualidade de vida e família e isso é reflexo de seus valores, sua cultura e educação. Ter vivido lá quase sete anos foi um privilégio, mas como eles mesmo hoje percebem, o futuro e as grandes oportunidades estão aqui.

Sobre o autor: Wagner Beskow viveu quase 7 anos na Nova Zelândia durante seu mestrado e doutorado em Manejo de Sistemas Pastoris na Massey University, Palmerston North. É hoje sócio-diretor da Transpondo Pesquisa, Treinamento e Consultoria Agropecuária Ltda. Mais infomações em: www.transpondo.com.br

fonte: http://www.milkpoint.com.br

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Comportamentos afiliativos em vacas leiteiras a pasto, o papel da lambida


O presente trabalho tem como objetivo o estudo dos comportamentos sócio-positivos afiliativos, em especial lambidas, em vacas leiteiras criadas em Pastoreio Racional Voisin. A quantidade, distribuição temporal, influência da hierarquia social e da prenhez, e sincronismo das lambidas com outros comportamentos foram aspectos investigados. Para tanto, utilizaram-se seis rebanhos com média de 24,66±4,8 vacas da raça Jersey. Os animais foram observados por seis dias em períodos de sete horas, entre as ordenhas da manhã e da tarde, a partir do momento que entravam em um novo piquete. A cada seis minutos eram registrados os comportamentos de todos os animais como instantâneos. As lambidas e as interações agonísticas foram anotadas como eventos, toda vez que ocorriam. Foram elaboradas matrizes sociométricas para cada rebanho e dados individuais de estado gestacional, escore corporal, ordem de lactação e escore clínico foram prospectados para cada animal. A porcentagem de vacas que executaram e receberam lambidas foi próxima de 100%, sem diferença entre rebanhos (p_0,05). No período observado, em média cinco vacas foram lambidas por cada executora, e o mesmo número de vacas lamberam cada receptora. O número de lambidas executadas e recebidas por vaca nas 42 horas observadas diferiu entre os rebanhos (p<0,05) e foi próximo de 7,5. Os eventos de lambidas concentraram-se no horário entre 9:00 h e 11:00 h (p<0,05), coincidindo com os horários de maior freqüência de pastoreio (p<0,05). Não houve correlação entre executar lambidas e receber lambidas (p>0,05), exceto em uma propriedade. Também não houve correlação (p>0,05) entre executar lambidas e instigar interações agonísticas ou entre executar lambidas e ser vítima de interações agonísticas. Da mesma forma, não houve correlação entre receber lambidas e instigar interações agonísticas ou entre receber lambidas e ser vítima de interações agonísticas. Vacas subordinadas executam e recebem menos lambidas que as intermediárias e dominantes (p<0,05). Vacas prenhes executam e recebem mais lambidas que as vazias (p<0,05). Houve uma alta correlação, positiva e significativa (p<0,001), entre o número de interações agonísticas da vaca dominante e de seu respectivo rebanho. As lambidas são interações táteis de ocorrência generalizada em bovinos, que foram conservadas evolutivamente pelas associações entre os animais. São comportamentos inatos cuja causa parece estar relacionada à liberação intracerebral de opióides endógenos e cuja função pode estar relacionada à coesão social. Vacas lambem mais durante ciclos de pastoreio, que são momentos de vulnerabilidade predatória. Quanto maior o rebanho, menor o número de lambidas, correlação condizente com a maior probabilidade de predação em grupos menores. O comportamento de lambida não tem relação clara com a hierarquia social e não parece funcionar como instrumento de redução de conflitos. Vacas dominantes agressivas podem predizer rebanhos agressivos.

Thiago Mombach Pinheiro Machado, Laboratório de Etologia Aplicada - LETA, dissertação do mestrado de Agroecossistemas do CCA - UFSC (2009)

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Homeopatia em frangos de corte criados em sistema de semi-confinamento alternativo


A carne de frango produzida em sistemas alternativos ao industrial tem uma demanda crescente pelos consumidores. Entretanto, as linhagens caipiras existentes são de crescimento lento e baixa conversão alimentar, comparadas às linhagens industriais, o que onera a produção. Já o uso de frangos de linhagens industriais em sistemas “alternativos” tem como limitação a necessidade de uso de antibióticos e coccidiostáticos na ração. O presente experimento objetivou avaliar a eficácia de medicamentos homeopáticos no desempenho e saúde de frangos de corte criados com acesso a pasto. Dois grupos de 90 frangos da linhagem industrial Cobb foram aleatoriamente alocados, a partir dos 21 dias de vida, a três tratamentos: Controle (CN), Calcarea carbonica CH12 (CC) e Calcarea phosphorica CH12 (CP), num desenho de blocos completamente casualizados em duas etapas. Em cada etapa havia três blocos, totalizando seis repetições por tratamento, cada uma formada por um lote de 10 frangos, alojados numa baia de 4m2 com 6m2 de pasto. O experimento foi realizado no verão de 2008, no Setor de Avicultura do Centro de Ciências Agrárias da UFSC. As aves foram pesadas aos 21 dias e semanalmente até o abate aos 49 dias. Após o abate, também foram pesados carcaça, coração, fígado, moela e pés. Na segunda etapa, na semana que antecedeu a transferência dos animais do pinteiro para as baias, houve fortes chuvas, o que deve ter provocado estresse nos pintos, que aos 21 dias, pesaram 523g, enquanto na primeira etapa o peso nessa idade foi de 893g. Assim, houve diferença entre etapas no peso final (Etapa 1 = 3469,5 ± 38,4g, Etapa 2 = 3348,1 ± 40,0g; P<0,03), sendo que na etapa 2 o ganho de peso dos animais foi superior (Etapa 1 = 2576±38g; Etapa 2 = 2825±38g; P<0,0004). Não houve diferenças nem entre etapas, nem entre os tratamentos para as variáveis: peso de carcaça, pés e moela (P>0,40). Já o fígado e coração foram significativamente mais pesados na etapa 2 (P<0,01). O maior peso de fígado e coração na segunda etapa pode ser interpretado como um indicador de maior atividade metabólica desses órgãos, coincidente com o maior ganho de peso. Em ambas as etapas o peso do fígado foi menor (P<0,05) no tratamento com Calcarea carbonica. O menor peso de fígado observado nas aves tratadas com Calcarea carbonica, pode estar associado a uma redução à suscetibilidade ao estresse, no entanto são necessários novos estudos para confirmar este efeito. Conclui-se que a homeopatia utilizada não teve efeito no desempenho de frangos de corte de genética industrial criados em sistema de semi-confinamento. Esses resultados também sugerem a possibilidade da criação de frangos de genética industrial sem aditivos e antibióticos, e num sistema de semi-confinamento ou “alternativo”, desde que se garantam condições profiláticas e instalações adequadas.

Rosane Amalcaburio. Laboratório de Etologia Aplicada - LETA, Dissertação de mestrado   de Agroecossistemas CCA-UFSC (2008). 

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

DECRETO  Nº 7.794/2012 de 20 de agosto de 2012 

Institui a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica.

A PRESIDENTA DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhe confere o art. 84, caput, incisos IV e VI, alínea “a”, da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 50 da Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003, e no art. 11 da Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003,  
DECRETA: 
Art. 1º  Fica instituída a Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PNAPO, com o objetivo de integrar, articular e adequar políticas, programas e ações indutoras da transição agroecológica e da produção orgânica e de base agroecológica, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida da população, por meio do uso sustentável dos recursos naturais e da oferta e consumo de alimentos saudáveis.
Parágrafo único. A PNAPO será implementada pela União em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal e Municípios, organizações da sociedade civil e outras entidades privadas. 
Art. 2º  Para fins deste Decreto, entende-se por:
I - produtos da sociobiodiversidade - bens e serviços gerados a partir de recursos da biodiversidade, destinados à formação de cadeias produtivas de interesse dos beneficiários da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, que promovam a manutenção e valorização de suas práticas e saberes, e assegurem os direitos decorrentes, para gerar renda e melhorar sua qualidade de vida e de seu ambiente;
II - sistema orgânico de produção - aquele estabelecido pelo art. 1º da Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003, e outros que atendam aos princípios nela estabelecidos;
III - produção de base agroecológica - aquela que busca otimizar a integração entre capacidade produtiva, uso e conservação da biodiversidade e dos demais recursos naturais, equilíbrio ecológico, eficiência econômica e justiça social, abrangida ou não  pelos mecanismos de controle de que trata a Lei nº 10.831, de 2003, e sua regulamentação; e
IV - transição agroecológica - processo gradual de mudança de práticas e de manejo de agroecossistemas, tradicionais ou convencionais, por meio da transformação das bases produtivas e sociais do uso da terra e dosrecursos naturais, que levem a sistemas de agricultura que incorporem princípios e tecnologias de base ecológica. 
Art. 3º  São diretrizes da PNAPO:
I - promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional e do direito humano à alimentação adequada e saudável, por meio da oferta de produtos orgânicos e de base agroecológica isentos de contaminantes que ponham em risco a saúde;
II - promoção do uso sustentável dos recursos naturais, observadas as disposições que regulem as relações de trabalho e favoreçam o bem-estar de proprietários e trabalhadores;
III - conservação dos ecossistemas naturais e recomposição dos ecossistemas modificados, por meio de sistemas de produção agrícola e de extrativismo florestal baseados em recursos renováveis, com a adoção de métodos e práticas culturais, biológicas e mecânicas, que reduzam resíduos poluentes e a dependência de insumos externos para a produção;
IV - promoção de sistemas justos e sustentáveis de produção, distribuição e consumo de alimentos, que aperfeiçoem as funções econômica, social e ambiental da agricultura e do extrativismo florestal, e priorizem o apoio institucional aos beneficiários da Lei nº 11.326, de 2006;
V - valorização da agrobiodiversidade e dos produtos da sociobiodiversidade e estímulo às experiências locais de uso e conservação dos recursos genéticos vegetais e animais, especialmente àquelas que envolvam o manejo de raças e variedades locais, tradicionais ou crioulas;
VI - ampliação da participação da juventude rural na produção orgânica e de base agroecológica; e
VII - contribuição na redução das desigualdades de gênero, por meio de ações e programas que promovam a autonomia econômica das mulheres. 
Art. 4º  São instrumentos da PNAPO, sem prejuízo de outros  a serem constituídos:
I - Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PLANAPO;
II - crédito rural e demais mecanismos de financiamento;
III - seguro agrícola e de renda;
IV - preços agrícolas e extrativistas, incluídos mecanismos de regulação e compensação de preços nas aquisições ou subvenções;
V - compras governamentais;
VI - medidas fiscais e tributárias;
VII - pesquisa e inovação científica e tecnológica;
VIII - assistência técnica e extensão rural;
IX - formação profissional e educação;
X - mecanismos de controle da transição agroecológica, da produção orgânica e de base agroecológica; e
XI - sistemas de monitoramento e avaliação da produção orgânica e de base agroecológica. 
Art. 5º  O PLANAPO terá como conteúdo, no mínimo, os seguintes elementos:
I - diagnóstico;
II - estratégias e objetivos;
III - programas, projetos, ações;
IV - indicadores, metas e prazos; e
V - modelo de gestão do Plano.
Parágrafo único. O PLANAPO será implementado por meio das dotações consignadas nos orçamentos dos órgãos e entidades que dele participem com programas e ações. 
Art. 6º  São instâncias de gestão da PNAPO:
I - a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - CNAPO; e
II - a Câmara Interministerial de Agroecologia e Produção Orgânica - CIAPO. 
Art. 7º  Compete à CNAPO:
I - promover a participação da sociedade na elaboração e no acompanhamento da PNAPO e do PLANAPO;
II - constituir subcomissões temáticas que reunirão setores governamentais e da sociedade, para propor e subsidiar a tomada de decisão sobre temas específicos no âmbito da PNAPO;
III - propor as diretrizes, objetivos, instrumentos e prioridades do PLANAPO ao Poder Executivo federal;
IV - acompanhar e monitorar os programas e ações integrantes do PLANAPO, e propor alterações para aprimorar a realização dos seus objetivos; e
V - promover o diálogo entre as instâncias governamentais e não governamentais relacionadas à agroecologia e produção orgânica, em âmbito nacional, estadual e distrital, para a implementação da PNAPO e do PLANAPO. 
Art. 8º  A CNAPO terá a seguinte composição paritária:
I - quatorze representantes dos seguintes órgãos e entidades do Poder Executivo federal:
a) um da Secretaria-Geral da Presidência da República;
b) três do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, sendo um da Companhia Nacional de Abastecimento - CONAB e um da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA;
c) dois do Ministério do Desenvolvimento Agrário, sendo um do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA;
d) dois do Ministério da Saúde, sendo um da Agência Nacional de Vigilância Sanitária - ANVISA;
e) dois do Ministério da Educação, sendo um do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação - FNDE;
f) um do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação;
g) um do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome;
h) um do Ministério do Meio Ambiente; e
i) um do Ministério da Pesca e Aquicultura; e
II - quatorze representantes de entidades da sociedade civil.
§ 1º  Cada membro titular da CNAPO terá um suplente.
§ 2º Os representantes do governo federal na CNAPO serão indicados pelos titulares dos órgãos previstos no inciso I do caput e designados em ato do Ministro de Estado da Secretaria-Geral da Presidência da República.
§ 3º Ato conjunto dos Ministros de Estado do Desenvolvimento Agrário, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e da Secretaria Geral da Presidência da República disporá sobre o funcionamento da CNAPO, sobre os critérios para definição dos representantes das entidades da sociedade civil e sobre a forma de sua designação.
§ 4º O mandato dos membros representantes de entidades da sociedade civil na CNAPO terá duração de dois anos.
§ 5º A Secretaria-Geral da Presidência da República exercerá a função de Secretaria-Executiva da CNAPO e providenciará suporte técnico e administrativo ao seu funcionamento.
§ 6º Poderão participar das reuniões da CNAPO, a convite de sua Secretaria-Executiva, especialistas e representantes de órgãos e entidades públicas ou privadas que exerçam atividades relacionadas à agroecologia e produção orgânica.  
Art. 9º  Compete à CIAPO:
I - elaborar proposta do PLANAPO, no prazo de cento e oitenta dias, contado da data de publicação deste Decreto;
II - articular os órgãos e entidades do Poder Executivo federal para a implementação da PNAPO e do PLANAPO;
III - interagir e pactuar com instâncias, órgãos e entidades estaduais, distritais e municipais sobre os mecanismos de gestão e de implementação do PLANAPO; e
IV - apresentar relatórios e informações ao CNAPO para o acompanhamento e monitoramento do PLANAPO. 
Art. 10.  A CIAPO será composta por representantes, titular e suplente, dos seguintes órgãos:
I - Ministério do Desenvolvimento Agrário, que a coordenará;
II - Secretaria-Geral da Presidência da República;
III - Ministério da Fazenda;
IV - Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento;
V - Ministério do Meio Ambiente;
VI - Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome;
VII - Ministério da Educação;
VIII - Ministério da Saúde;
IX - Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação; e
X - Ministério da Pesca e Aquicultura.
§ 1º Os membros da CIAPO serão indicados pelos titulares dos órgãos e designados em ato do Ministro de Estado do Desenvolvimento Agrário.
§ 2º Poderão participar das reuniões da CIAPO, a convite de sua coordenação, especialistas e representantes de órgãos e entidades públicas ou privadas que exercem atividades relacionadas à agroecologia e produção orgânica.
§ 3º O Ministério do Desenvolvimento Agrário exercerá a função de Secretaria-Executiva da CIAPO e providenciará suporte técnico e administrativo ao seu funcionamento. 
Art. 11.  A participação nas instâncias de gestão da PNAPO será considerada prestação de serviço público relevante, não remunerada. 
Art. 12.  O Regulamento da Lei nº 10.711, de 5 de agosto de 2003, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Sementes e Mudas - SNSM, aprovado pelo Decreto nº 5.153, de 23 de julho de 2004, passa a vigorar com as seguintes alterações:
“Art. 4º  ..................................................................................................................
§ 2º Ficam dispensados de inscrição no RENASEM aqueles que atendam aos requisitos de que tratam o caput e o § 2º do art. 3º da Lei nº 11.326, de 24 de julho de 2006, e multipliquem sementes ou mudas para distribuição, troca e comercialização entre si, ainda que situados em diferentes unidades da federação.
§ 3º A dispensa de que trata o § 2º ocorrerá também quando a distribuição, troca, comercialização e multiplicação de sementes ou mudas for efetuada por associações e cooperativas de agricultores familiares, conforme definido pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, desde que sua produção seja proveniente exclusivamente do público beneficiário de que trata a Lei nº 11.326, de 2006, e seus regulamentos.
..................................................................................”. (NR) 
Art. 13.  O Decreto nº 6.323, de 27 de dezembro de 2007, passa a vigorar com as seguintes alterações: 
“Art. 33. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento organizará, junto à Coordenação de Agroecologia, a Subcomissão Temática de Produção Orgânica - STPOrg da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - CNAPO e, junto a cada Superintendência Federal de Agricultura, Comissões da Produção Orgânica nas Unidades da Federação - CPOrg-UF, para auxiliar nas ações necessárias ao desenvolvimento da produção orgânica, com base na integração entre os agentes da rede de produção orgânica do setor público e do privado, e na participação da sociedade no planejamento e gestão democrática das políticas públicas.
§ 1º As Comissões serão compostas de forma paritária por membros do setor público e da sociedade civil de reconhecida atuação no âmbito da produção orgânica.
§ 2º O número mínimo e máximo de participantes que comporão as Comissões observará as diferentes realidades existentes nas unidades federativas.
§ 3º A composição da STPOrg garantirá a presença de, no mínimo,  um representante do setor privado de cada região geográfica.
§ 4º Os membros do setor público nas CPOrg-UF representarão, sempre que possível, diferentes segmentos, como assistência técnica, pesquisa, ensino, fomento e fiscalização.
§5º Os membros do setor privado nas CPOrg-UF representarão, sempre que possível, diferentes segmentos, como produção, processamento, comercialização, assistência técnica, avaliação da conformidade, ensino, produção de insumos, mobilização social e defesa do consumidor.” (NR) 
“Art. 34. ........................................................................
I - orientar e sugerir atividades a serem desenvolvidas pelas CPOrg-UF; e
VII - subsidiar a CNAPO e a Câmara Intergovernamental de Agroecologia e Produção Orgânica - CIAPO na formulação e gestão da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PNAPO e do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica - PLANAPO.” (NR) 
“Art. 35. .........................................................................
VII - emitir parecer sobre pedidos de credenciamento de organismos de avaliação da conformidade orgânica; e
VIII - subsidiar a CNAPO e a CIAPO na formulação e gestão da PNAPO e do PLANAPO.” (NR) 
Art. 14.  Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. 
Brasília, 20 de agosto de 2012; 191º da Independência e 124º da República. 
DILMA ROUSSEFF
Mendes Ribeiro Filho
Tereza Campello
Gilberto José Spier Vargas
Gilberto Carvalho

Este texto não substitui o publicado no DOU de 21.8.2012 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Efeito do Pastoreio Racional Voisin na pastagem, no pastoreio e na compactação do solo.


O sistema de manejo Pastoreio Racional Voisin (PRV) tem sido amplamente utilizado na produção de leite no Sul do Brasil. Bastante polêmico e pouco estudado, duas questões têm sido objeto de dúvida na aplicação desse sistema: a altura do resíduo pós-pastoreio e o uso de lotes de desnate e repasse. Essas diferenças de manejo podem causar diferentes efeitos na produção e na qualidade da pastagem, na compactação do solo pelo pisoteio e no comportamento de pastoreio dos animais. Este trabalho estudou esses aspectos em dois experimentos. No experimento 1 foi testado o efeito de duas alturas de resíduo pós-pastoreio na pastagem T1 (baixo = 3cm) e T2 (moderado = 12cm), sobre a produtividade e qualidade da pastagem e compactação do solo, com avaliações em dezembro/2006, fevereiro, julho e setembro/2007, num delineamento em blocos casualizados (n=6). No experimento 2 foi aplicado o pastoreio em lotes de desnate e repasse nos tratamentos descritos do experimento 1, num quadrado latino 4x4x4, com o objetivo de estudar o comportamento de pastoreio e o valor nutritivo do pasto consumido. Os tratamentos foram: T1 (resíduo baixo e desnate), T2 (resíduo baixo e repasse), T3 (resíduo moderado e desnate) e T4 (resíduo moderado e repasse). No experimento 1, a maior produção de matéria seca (MS) da pastagem no T1 se expressou apenas nos meses de julho (2702,9 vs  2489,8 ± 9,84, p<0,0006) e setembro (1646,12 vs 1418,62 ± 50,48, p<0,02), mas a composição botânica da pastagem e resistência do solo à penetração não foram diferentes. No experimento 2, as vacas pastaram por mais tempo no T1 comparado ao T2 e T4, não diferindo do T3 (196,87 vs 168,12; 155,62 e 181,87 ± 8,11 min, p<0,05). Por outro lado, verificou-se maior tempo de ócio no T2, T3 e T4 do que no T1 (33,75; 30,00 e 38,12 vs 12,5 ± 6,78 min, p< 0,03). A taxa de bocadas foi maior nos tratamentos T1 e T3 do que em T2 e T4 (43,87 e 42,41 vs 39,1 e 39,28 ± 0,72 min/h, p< 0,008). Em paralelo com os resultados do comportamento de pastoreio, o valor nutritivo da pastagem foi maior nos tratamentos T1 e T3 do que nos T2 e T4 com relação à PB (19,00 e 18,37 vs 15,28 e 14,78 ± 0.88; p<0,01) e DIVMO (70,65 e 69,86 vs 61,97 e 62,58 ± 2.06; p< 0,006). A altura do resíduo pós-pastoreio baixo (3cm) apresentou melhores resultados comparada a uma altura de resíduo moderada (12cm) em termos de produção de MS, sem prejuízos à composição botânica ou à compactação do solo. O tempo de pastoreio e o valor nutritivo da pastagem foi maior quando o estrato superior esteve disponível. Esses resultados apóiam a hipótese de que no PRV o rebrote das plantas pratenses se dá fundamentalmente a partir das reservas que a planta acumula, e se faz necessário o manejo rasante, pois estimula o segmento produtivo, que é a fotossíntese, e limita o segmento consumidor, que é a respiração do tecido verde remanescente e que a divisão de lotes em desnate e repasse possibilita um melhor aproveitamento da pastagem.

Flávia Luisa Meira Cordeiro. Laboratório de Etologia Aplicada - LETA. Dissertação de Mestrado do Curso de Agroecossistemas - CCA - UFSC (2008). 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Aspectos extrínsecos do comportamento de bebida de bovinos em pastoreio


Água e sombra são recursos essenciais para animais criados no pasto, tendo reflexos no seu despenho e bem-estar. Em decorrência dos vários fatores que determinam a necessidade de água de um bovino, a ingestão voluntária pelo animal em condições de livre acesso é a melhor medida para o suprimento adequado. Porém, vários aspectos extrínsecos afetam a ingestão voluntária de água dos animais, podendo ocasionar estresse hídrico com conseqüências negativas para a saúde, desempenho e bem-estar. Neste trabalho, estudamos, em dois experimentos, alguns dos fatores que influenciam o comportamento de bebida dos bovinos em pastoreio, com intuito de otimizar o fornecimento de água, melhorando a ingestão voluntária de água dos bovinos. No experimento 1, avaliamos o efeito do tipo do bebedouro no comportamento de bebida de novilhas de corte. No teste 1, quando tinham disponível ambos os bebedouros (A: Bebedouro retangular de concreto ou B: Bebedouro redondo de PVC), os animais apresentaram maior número de eventos de bebida (P<0,0001), tempo bebendo (P<0,0001) e ingestão de água (P<0,009) no bebedouro B. No teste 2 deste experimento, os animais foram expostos a um tipo de bebedouro de cada vez, num desenho tipo “cross-over”, em grupos de dois. Todos os grupos beberam mais vezes (P<0,0003), por mais tempo (P<0,02) e em maior quantidade (P<0,01) no bebedouro B do que no A. Portanto, o tipo de bebedouro influencia o comportamento de bebida e o consumo de água dos bovinos, mesmo quando eles dispõem de apenas uma opção de bebedouro. No experimento 2, testamos se a localização do bebedouro (piquete ou corredor) e a presença da sombra no piquete influenciavam o comportamento de bebida dos bovinos em Pastoreio Racional Voisin - PRV. A sombra dentro do piquete não influenciou o comportamento de bebida das vacas, porém a posição do bebedouro modificou significativamente este comportamento. Nos tratamentos em que o bebedouro estava localizado dentro do piquete, foi verificado um maior número de eventos de bebida (P<0,001), maior tempo bebendo (P<0,01) e apresentaram maior consumo de água (P<0,02) do que quando o bebedouro estava no corredor, distante 150 metros do potreiro de pastoreio. Ainda, quando o bebedouro estava no corredor, o efeito da dominância social afetou o comportamento de bebida dos animais, sendo que os dominantes beberam mais freqüentemente (P<0,02) e por mais tempo (P<0,02) que os animais subordinados. Conseqüentemente, a melhor localização do bebedouro em PRV foi dentro do piquete de pastoreio, pois proporciona aos animais maior ingestão de água, maior número de eventos de bebida e maior tempo bebendo, inclusive superando os efeitos da dominância social. Os bovinos são sensíveis ao tipo de bebedouro e sua localização, o que pode ter impacto direto no bem-estar e na produtividade dos animais.

Paula Araújo Dias Coimbra. Laboratório de Etologia Aplicada - LETA, Dissertação do curso de mestrado em Agroecossistemas - CCA - UFSC.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Bebedouros: bem-estar animal e proteção ambiental no suprimento de água para bovinos de corte


A eficácia das técnicas, a crescente preocupação com a degradação ambiental e um comportamento humano economicamente orientado são fatores relevantes e indissociáveis na adoção de alternativas para o manejo animal. A garantia de um adequado suprimento de água na bovinocultura demanda tanto compreender o comportamento animal quanto demanda compreender a disposição e as preferências humanas na intervenção nesse suprimento. Para avaliar o comportamento de bovinos de corte frente a diferentes formas de suprimento de água foram desenvolvidos dois experimentos. No primeiro, com o objetivo de avaliar o efeito da fonte no suprimento de água sobre o comportamento e o desempenho de bovinos, oito grupos de seis novilhos foram supridos com água fornecida em bebedouros ou em açudes. No segundo experimento, utilizando quatro grupos de 12 animais, dentre os quais seis com e seis sem experiência prévia com bebedouros, foi verificado se a eventual preferência pelo bebedouro ou pelo açude seria afetada pelo fato dos animais já terem experiência com as alternativas apresentadas. Uma avaliação da percepção de produtores rurais sobre o fornecimento de água para os bovinos foi realizada com oito entrevistados, ouvidos quanto ao reconhecimento da importância e à disposição em melhorar o suprimento de água aos animais. Uma vez incorporada a experiência de beber em bebedouro, os bovinos desenvolveram uma preferência por essa alternativa de suprimento de água (P=0,0335), bem como ganharam mais peso do que aqueles que somente podiam beber em açude (P=0,0001), apresentando um ganho médio diário 29% superior durante o período experimental. É possível inferir que além de vantagens na criação animal em si, o uso de bebedouros concorre para a preservação de taludes e da qualidade dos cursos d’água. Os produtores consultados, todavia, somente incorporariam esse procedimento de suprimento de água em bebedouros se de fato verificassem vantagens econômicas.

Gabriela Schenato BICA. Laboratório de Etologia Aplicada - LETA, Dissertação de mestrado do curso de Agroecossistemas, CCA - UFSC. (2004)

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Comparação dos sistemas de manejo de produção orgânico e convencional de pastagens de Bracchiaria brizantha cv. Marandu em consorcio com o Stylosanthes guianensis cv. Bela em Planaltina-DF1


Carlos Henrique Falcão de Carvalho2, Felipe de Aguiar Duque3, Roberta Gonçalves Izzo4, João Paulo Guimarães Soares5,Francisco Duarte Fernandes5, Allan Kardec Braga Ramos5, Luiz Carlos Brito Ferreira6, Juaci Vitória Malaquias7

1Pesquisa financiada pelo CNPq-Projeto Repensa; 2 Estudante de Zootecnia na Faculdade associadas da Upis. Bolsista da EMBRAPA-CPAC, carloshenrique_falcao@hotmail.com; 3 Estudante de Zootecnia na Faculdade associadas da Upis. Bolsista de EMATER-DF, felipeduque@zootecnista.com.br; 4 Bolsista de DTI do CNPq, roroizzo@hotmail.com; 5Pesquisador da EMBRAPA-CPAC, p.soares@cpac.embrapa.br, duarte@cpac.embrapa.br, allan@cpac.embrapa.br; 6 Extensionista da EMATER-DF, ebuleite@gmail.com; 7Analista da EMBRAPA-CPAC, juaci.malaquias@cpac.embrapa.br,

Resumo: O objetivo deste trabalho foi comparar a produção e teor de matéria seca (MS) e proteína bruta (PB) de pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marandu em consórcio com Stylosanthes Guianensis cv. Bela sob os sistemas de manejo orgânico e convencional. Para a correção do solo e adubação verde foi utilizado o calcário, gesso e plantio da crotalária respectivamente para o manejo orgânico e convencional. No manejo convencional foi feita adubação nitrogenada, fosfatada e potássica com uréia, supertriplo e cloreto de potássio, respectivamente. No manejo orgânico, utilizou-se o termofosfato magnesiano e o termopotássio, respectivamente. O delineamento experimental foi em blocos ao acaso, com 1 fator com três tratamentos: manejo orgânico, convencional e testemunha com três repetições com quatro amostras por parcela. Não houve diferenças estatísticas entre os sistemas de manejo para % MS e % PB da brachiaria, estilosantes e do consorcio entre ambos. Entretanto, foram observadas diferenças na produção de MS (kg ha) e PB (kg ha) entre os sistemas. Para a produção de MS (kg ha) e PB (kg ha) o manejo convencional (2815,6; 170,1 kg ha) não diferiu do orgânico (1610,8; 111,3 kg ha) e foi superior a testemunha (1158,5; 81,5 kg ha) respectivamente. O sistema de produção orgânico apresentou resultados satisfatórios de produção MS (kg ha) e PB (kg ha) nas condições experimentais da região de Planaltina-DF.

Palavras–chave: Adubação verde, pó de rocha, fosfato de rocha, consórcio, MS, PB 

Organic and conventional handling systems comparison of Bracchiaria brizantha cv. Marandu and Stylosanthes guianensis cv. Bela mixed pastures in Planaltina-DF

Abstract: The objective of this work was to compare the dry matter (DM) and crude protein (CP) production of Brachiaria brizantha cv. Marandu mixed Stylosanthes guianensis cv. Bela pastures under organic and conventional handling. For the organic and conventional handling the soil correction and green fertilization was made with the calcareous rock and Crotalaria juncea plantation, respectively. In the conventional handling N, P, K fertilization was made with urea, phosphorus supertriple and potassium chloride, respectively. In the organic handling was used the potassium and phosphorus rock, respectively. The experimental delineation was randomized bloks, with one factor with three treatments: organic, conventional handling and testifies with three repetitions and four samples for parcel. No statistical differences were found for % DM and % CP of the brachiaria, estilosantes and consortium. However, DM production (kg ha) and CP (kg ha) differences between the handling systems were observed. The DM (kg ha) and CP (kg ha) production for conventional handling (2815,6; 170.1 kg ha) did not differ from organic (the 1610,8; 111,3 kg ha) and it was superior of testified (1158,5; 81,5 kg ha) respectively. The organic production system presented satisfactory DM (kg ha) and CP (kg ha) production results in the Planaltina-DF conditions.

Keywords: green manure, potassium rock, phosphorus rock, consortium, DM, CP

Introdução

O sistema orgânico de produção não é obtido somente na troca de insumos químicos por insumos orgânicos/biológicos/ecológicos. Segundo a Lei 10831, através da IN46 (Brasil, 2010) são necessários uma série de procedimentos para que as pastagens de uma propriedade sejam consideradas orgânicas (Soares, 2011). Estes procedimentos dizem respeito ao uso de consórcio de gramíneas e leguminosas, a diversificação de espécies vegetais e a implantação de sistemas silvipastoris, nos quais as árvores e arbustos fixadores de nitrogênio (leguminosas) possam se associar a cultivos agrícolas, com pastagens ou mantidos alternadamente com pastejos e cultivos em sistemas agrosilvipastoris, onde a abordagem sistêmica da unidade de produção mantém a sustentabilidade (Aroeira, 2003). Pelo Bioma cerrado apresentar solos de baixa fertilidade, a utilização de insumos alternativos disponíveis é estratégico ao sistema orgânico para o desenvolvimento e biofertilização adequada das pastagens, como os fosfatos de rocha, pó de rocha, calcário, micorrizas arbusculares e fixação biológica de nitrogênio. Estas estratégias suprem de forma natural as deficiências minerais do solo, assim como são importantes por promover uma maior absorção e utilização de nutrientes, favorecendo a nodulação e fixação de N2 em leguminosas, amenizando os estresses nutricionais, promovendo uma nutrição balanceada da planta e possibilitando acessos a nutrientes pouco disponíveis (Siqueira & Saggin Jr., 2001). O objetivo deste trabalho é comparar o sistema de manejo orgânico em relação ao convencional na produção de de pastagens de Bracchiaria brizantha cv. Marandu em consorcio com o Stylosanthes guianensis cv. Bela em Planaltina-DF.

Material e Métodos


Foram avaliadas no período seco do ano de 2011 pastagens de Braquiaria (Brachiaria brizantha cv. Marandu) em consórcio com estilosantes (Stylosanthes guyanensis cv. Bela) numa área experimental da Embrapa Cerrados, em Planaltina-DF. As coordenadas da área são de latitude 15°34’S, e de longitude 47°41’W, com 1007m2 de altitude. O clima da região é Aw definido como clima tropical úmido com estação chuvosa no verão e seca no inverno, segundo a classificação de Köeppen. O solo da área experimental foi um Latossolo Vermelho, com baixa fertilidade natural, com as seguintes características químicas: pH = 5,8; Al = 0,04 cmol dm3; Ca + Mg = 1,54 cmol dm3; P = 3,51, mg dm³ e K = 0,47 mg dm³. Para a correção do solo e adubação verde foi utilizado o calcário, gesso e plantio da crotalária respectivamente para o manejo orgânico e convencional. No manejo convencional foi feita adubação nitrogenada, fosfatada e potássica com uréia, supertriplo e cloreto de potássio, respectivamente. No manejo orgânico, utilizou-se o termofosfato magnesiano (20% P2O5) e o termopotássio (83% K2O), respectivamente. As quantidades utilizadas obedeceram a análise do solo. As leguminosas com exceção do
estilosantes foram inoculadas com bactérias diazotróficas e na área distribuído fungos micorrizicos. A amostragem das pastagens foi feita utilizando-se o quadrado de ferro de 1m² lançado aleatoriamente, onde foram separados nas amostras as porcentagens da gramínea e da leguminosa. As análises de solos e qualidade da pastagem foram feitas conforme descritos pelos Bremner & Edward (1965) e AOAC (1995), respectivamente. O delineamento experimental foi em blocos ao acaso, com 1 fator com três tratamentos: manejo orgânico, convencional e testemunha com três repetições com quatro amostras por parcela. A verificação estatística da significância dos tratamentos foi feita pela Análise de Variância (ANOVA) e para comparação de médias foi utilizado o teste Tukey a significância de 5%. 

Resultados e Discussão


Não houve diferença estatística entre o sistema de manejo orgânico e convencional para % MS da brachiaria, estilosantes e do consorcio entre ambos (Tabela 1). Entretanto, foram observadas diferenças na produção de MS (kg/ha) entre os sistemas estudados para a braquiária e o consórcio. Para a produção de MS (kg//ha) o manejo convencional (2695,0; 2815,6 kg/ha) não diferiu do orgânico (1503,2; 1610,8 kg/ha) e foi superior a testemunha (1002,2; 1158,5 kg/ha) para a Braquiaria e o consórcio respectivamente. Os resultados observados para o sistema de manejo orgânico foram corroborados por Andrade et al. (2003) e Oliveira et al.(1996) observando que introdução de leguminosas pode aumentar o aporte de N em sistemas consorciados, proporcionado transferência de N e aumento as produções de MS para gramíneas. Para o sistema convencional a maiores produções de MS já eram esperadas, uma vez que adubação convencional disponibiliza mais rapidamente os nutrientes, sobretudo no primeiro ano de utilização da pastagem, assim como o fornecimento de nutrientes mais rapidamente disponíveis também auxilia a atividade dos microorganismos favorecendo as reações químicas do solo (Siqueira & Saggin Jr., 2001), enquanto que quando se utiliza a adubação com as fontes de fósforo e potássio naturais, que apresentam liberação mais lenta, a resposta das plantas se torna menor, Não houve também diferença estatística entre o sistema de manejo orgânico e convencional para % PB da brachiaria, estilosantes e do consorcio entre ambos (Tabela 2). Contudo foram observadas diferenças na produção de PB (kg/ha) entre os sistemas estudados para a braquiária e o consórcio. Para a produção de PB (kg/ha) o manejo convencional (159,1 e 170,1 kg/ha) não diferiu do orgânico (101,3 e 111,3 kg ha) e foi superior a testemunha (66,9 e 81,5 kg/ha) para a Braquiaria e o consórcio respectivamente. Segundo Seiffert et al. (1985) quando utiliza-se a adubação nitrogenada com fontes convencionais ocorre a inibição da fixação biológica de nitrogênio das leguminosas que não fixam para si e nem transferem para as gramíneas o que seguramente ocorreu no presente trabalho. Pode-se inferir contudo que a produção de PB (kg ha) no manejo orgânico foi advinda da fixação biológica de nitrogênio, pois segundo o mesmo autor estudando a associação de Calopogonium mucunoides com B. decumbens, concluíram que esta leguminosa reciclou anualmente 63 kg ha de N, aumentando a disponibilidade desse elemento para a gramínea. Oliveira et al.(1996) estudando a fixação e transferência de nitrogênio no consórcio do estilosantes com o capim de rhodes com adubação isenta de N, semelhante ao sistema de manejo orgânico estudado, mostrou transferência de 10,3 mg de N da gramínea para leguminosa aumentando a produção de proteína bruta do capim.


Conclusões


O sistema orgânico de produção de pastagens apresentou resultados satisfatórios de produção MS (kg/ha) e PB (kg/ha) nas condições de Planaltina-DF. Porém a utilização de insumos alternativos deve ser melhor estudada em função da resiliência da produção de pastagens em função do uso destes insumos num período maior de tempo.



Literatura citada

AROEIRA, L. J. M.; PACIULLO, D. S. C.; FERNANDES, E. N. Produção Orgânica: enfoque leite, suas
implicações e conseqüências. p.155-195. In: STRINGHETA, P.C., MUNIZ, J. N. Alimentos orgânicos: produção, tecnologia e certificação. Viçosa: UFV, 2003. 452p.


BRASIL. Instrução normativa nº 46, de 06 de outubro de 2011. Lei nº 10831, de 23 de dezembro de 2003. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 06 Outubro. 2011. Seção 1, p. 8.


OLIVEIRA, J. P.; BURITY, H. A.; LYRA, M.C. C. P.; LIRA Jr., M. A. Avaliação da fixação e transferência de nitrogênio na associação gramíneas–leguminosas forrageiras tropicais, através da diluição isotópica do 15N. Revista da Sociedade Brasileira de Zootecnia, v. 25, n. 2, p. 210-222, 1996.


SEIFFERT, J.R.; ZIMMER, A.H.; SCHUNKE, R.M. et al. Reciclagem de nitrogênio em pastagem consorciada de Calopogonium mucunoides com Brachiaria decumbens. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.20, n.5, p.529-544, 1985.


SIQUEIRA, J.O. & SAGGIN-JUNIOR, O.J. Dependency on arbuscular mycorrhizal fungi and responsiveness of Brazilian native wood species. Mycorrhiza, 11:245-255, 2001.


SOARES, J.P.G.;AROEIRA,L.J.M.; FONSECA, A.H.F.;FAGUNDES,G.M.,SILVA, J.B. Produção orgânica de leite:Desafios e perspectivas. In: Marcondes, M.I.; Veloso, C.M., Guimarães, J.D.; Andrade, F.L.; Prados, L.F.; Amorim, L.S.; Fernandes, L.S.; Machado, M.G.; Cardoso, W.L.. (Org.). Anais do III Simpósio Nacional de Bovinocultura Leiteira e I Simpósio Internacional de Bovinocultura Leiteira. 1 ed. VIÇOSA: Suprema Grafica e Editora, 2011, v.1 , p. 13-43.












Anais da 49a Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Zootecnia A produção animal no mundo em transformação

Brasília – DF, 23 a 26 de Julho de 2012


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Bases Práticas para a Produção de Leite a Pasto


Edmundo Benedetti (Bases práticas para produção de leite a pasto – 2º ed., www.edufu.ufu.brlivraria@ufu.br ).


Uma leitura indispensável para quem está de alguma forma envolvido com a atividade leiteira.

“Apesar de estar sendo favorecida, neste momento, por ofensivas conjunturais, a produção leiteira no Brasil enfrenta ainda um grande desafio: a busca de eficiência na gestão dos negócios e de compatibilidade entre o tipo de rebanho, a localização geográfica dele e o manejo adotado. A receita é adequar as tecnologias de produção às técnicas de gestão. Isso significa monitorar detalhadamente a reprodução animal, a nutrição (quanto custa alimentar cada animal e como ele responde ao investimento feito pela alimentação), o intervalo entre partos e a produção do rebanho. Essa gestão adequada permite aos criadores conhecer seu custo de produção e definir os investimentos e a aplicação de tecnológicas”. Edmundo Benedetti