quarta-feira, 13 de julho de 2016

Sobrevivência da humanidade depende de nossa alfabetização ecológica - Fritjof Capra

O PhD em física e escritor austríaco Fritjof Capra, autor de best-sellers como O Tao da FísicaO Ponto de Mutação e As Conexões Ocultas, abriu nesta quinta-feira, 2 de julho, o Congresso Internacional de Sustentabilidade para Pequenos Negócios (Ciclos), realizado pelo Sebrae em Cuiabá, no Mato Grosso.
Ao ministrar a palestra magna de abertura do evento, intitulada O estado do mundo: impactos da escassez na economia global, Capra defendeu o que chama de “pensamento sistêmico”, baseado na interdependência dos sistemas vivos, os quais ele inclui as sociedades urbanas e os ecossistemas.
“Nas próximas décadas, a sobrevivência da humanidade dependerá de nossa alfabetização ecológica”, destacou o físico. Para Capra, ser ecologicamente alfabetizado (ecoliterate) significa entender os princípios básicos da ecologia que os ecossistemas desenvolveram para manter a ‘teia da vida’.
“No Centro para Alfabetização Ecológica em Berkeley, meus colegas de trabalho e eu desenvolvemos uma pedagogia especial para ensinar nas nossas escolas esses princípios da ecologia e as ferramentas que são necessárias para construir e alimentar comunidades sustentáveis”, ressaltou.
Mudança de paradigmas
Nem todo o crescimento é bom, pois pode, por exemplo, se valer de exploração excessiva de recursos naturais, combustíveis fósseis e desigualdade de renda” – Fritjof Capra
Para o austríaco, o grande desafio de nossa época é construir e nutrir comunidades sustentáveis. “Os maiores problemas de nossa era: mudanças climáticas, pobreza, energia, água, estão conectados, são interdependentes. Suas soluções também”, enfatizou.
A fim de reverter o quadro atual do planeta, o pensador acredita que deva haver uma mudança de paradigmas, baseada em um “todo integrado”, tal qual um conjunto de sistemas interconectados, ao invés de uma coleção de partes dissociadas.
Papa Francisco
Avesso ao termo “desenvolvimento sustentável”, que segundo ele remete a ideia de crescimento ilimitado da economia, com base no Produto Interno Bruto (PIB), Capra enalteceu o chamado “crescimento qualitativo”, que segundo ele aprimora a qualidade da vida.
O físico aproveitou para elogiar a Encíclica divulgada recentemente pelo Vaticano. “O Papa Francisco reconheceu isso, quando cita que é necessário ‘redefinir nossa visão de progresso’. Nem todo crescimento é bom, pois pode, por exemplo, se valer de exploração excessiva de recursos naturais, combustíveis fósseis e desigualdade de renda”, justificou.
Na concepção de Capra, o Papa Francisco reconheceu a interdependência da natureza em sua Encíclica, “mas nossos políticos não conseguem conectar os pontos”.
O físico, escritor e ativista ambiental ainda observou que um mundo mais sustentável passa por investimentos na agroecologia, arquitetura sustentável e energias renováveis.
O Congresso Ciclos segue até sexta-feira (3) na capital mato-grossense.
Alguns dos trechos mais importantes da palestra de Capra:
“O conceito de sustentabilidade foi apresentado na década de 80 e, desde aquela época, foi distorcido. Vale a pena refletir por um momento sobre o que a sustentabilidade significa. Não é o crescimento econômico, mas a teia a qual defende nossa vida. Tem que ser projetada considerando a natureza.”
“O pensamento sistêmico pode servir para integrar ONGs, por exemplo. Ele é inerentemente multidisciplinar. As redes são o padrão básico de organização de todos os sistemas.”
“O crescimento bom é baseado nas energias renováveis, favorece a comunidade local, recicla… O crescimento qualitativo envolve soluções sistêmicas.”
“Os alimentos orgânicos têm efeito positivo na saúde das pessoas. A agricultura orgânica significa contribuir na luta contra as mudanças climáticas, pois o solo é rico em substâncias vivas.”
“Uma comunidade sustentável tem de ser projetada de uma forma que não interfira na maneira natural de como a natureza sustenta a vida.”
” [A alfabetização ecológica] Tem que se tornar uma competência crítica para políticos, empresários, indústria, universidade, todos os níveis. É preciso compreender os princípios básicos da ecologia e aplica-los.”
O repórter viajou a Cuiabá a convite do Centro Sebrae de Sustentabilidade.
Fonte: EcoD – Fotos: Rodrigo Lorenzon
http://www.revistaecologica.com/fritjof-capra-sobrevivencia-da-humanidade-depende-de-nossa-alfabetizacao-ecologica/?utm_campaign=shareaholic&utm_medium=whatsapp&utm_source=mobile

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Pronaf financia sistema de energia solar


Energia limpa para abastecer a casa da família, o estábulo e a câmara de resfriamento de leite. Essa é a expectativa do agricultor familiar José Varteni Gomes, de Santa Maria D'Oeste (PR). Ele financiou um sistema fotovoltaico, pela linha Mais Alimentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que deve ser instalado até o fim de julho. “Sou o primeiro agricultor familiar do Brasil a financiar esse sistema”, comemora.
Atualmente, a conta mensal de energia elétrica da propriedade de 14 hectares ultrapassa R$ 400,00. O financiamento foi no valor de R$ 23 mil e será pago em seis anos. O agricultor calcula que em 12 anos terá recuperado todo o investimento. De acordo com ele, 70% do seu gasto de energia é direcionado para a produção de insumos e trato com os animais. José cultiva ainda milho, feijão, batata doce, mandioca, arroz e erva-mate.
O financiamento de sistema de energia solar no Pronaf vai facilitar o planejamento com o gasto de energia nas propriedades rurais. Com a tecnologia o produtor assume o controle da conta de luz, pois paga uma parcela de financiamento fixa com até 3 anos de carência. Ou seja, pode economizar nesse período e depois começa a pagar o que deve com juros subsidiados. “Vale a pena. As placas podem produzir energia por 25 anos”, conta José.
O Pronaf já é bem conhecido pelo agricultor, que considera os juros baixos e o prazo confortável para a quitação. Ele já acessou crédito diversas vezes para investir na produção de erva mate e leite, além de comprar uma caminhonete e dois pequenos tratores. “O crédito é tudo na vida do agricultor. É um grande incentivo para trabalhar porque ele tem que produzir mais para pagar a dívida e ainda ter lucro”, acredita.



Sistema Solar Fotovoltaico

O funcionamento é bem simples. O raio solar é transformado em eletricidade quando entra em contato com os painéis fotovoltaicos. A eletricidade produzida é diferente da usada na tomada de casa. É necessário um equipamento chamado inversor. A energia não utilizada é convertida em créditos junto à concessionária, que são abatidos da conta de luz. O uso de créditos de energia foi possível a partir da resolução 482 da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), e a revisão 687, em vigor desde o último mês de março. Essa regulamentação permite que cada consumidor vire produtor de energia elétrica e use seus créditos junto a concessionária para abater na sua conta de luz.
“Isso facilita muito o planejamento na agricultura familiar. Em muitos casos o agricultor acumula créditos na entressafra, para usar no período em que mais precisa de energia e tem seus custos elevados. É muito semelhante a uma conta bancária, quando você deposita na poupança e saca quando precisa. Nesse caso, o Sol deposita os créditos na concessionária e você saca quando precisa, de forma automática”, exemplifica Hewerton Martins, diretor presidente da empresa Solar Energy do Brasil, responsável pelo sistema financiado por José Varteni.

De acordo com Martins, as expectativas de vendas para o público da agricultura familiar são grandes: “A agricultura familiar tem muita sinergia com o uso da energia solar e produção sustentável de alimentos. O lançamento do Plano Safra contemplando o financiamento para energia solar fotovoltaica é uma inovação e incentivo para o agricultor.”

Fonte: SECRETARIA ESPECIAL DE AGRICULTURA FAMILIAR E DO DESENVOLVIMENTO AGRÁRIO

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Mundo Orgânico Avança - Biofach 2016

por Angela Escosteguy

Boas notícias! Ocorreu há poucos dias a 26ª Biofach – a maior e mais importante feira mundial de orgânicos, em Nuremberg, Alemanha. Já na viagem de ida, algumas pistas do crescimento do setor: lanche orgânico no avião da Gol, revista de bordo da KLM com reportagem sobre o avanço dos alimentos orgânicos em Roma e lanches orgânicos no aeroporto de Amsterdam.
A feira de 80.000 m² teve este ano 48.000 visitantes, 10% a mais que no ano passado, provenientes de 132 países e cerca de 2.500 expositores. A Vivaness, feira de cosméticos naturais e orgânicos, que ocorre junto, também cresceu, acompanhando o mercado que este ano movimentou mais de um bilhão de dólares só na Alemanha.
O Brasil estava bem apresentado com dois grandes estandes, um da Apex Brasil e o Programa Organics Brasil e outro com produtos da agricultura familiar, coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário com o apoio do Ministério das Relações Exteriores e da Embaixada do Brasil em Berlim. Diversas Cooperativas do RS participaram levando arroz, suco de uva, geleias, erva mate, conservas, óleos essenciais e polpas de frutas.
biofach
Conforme Exame.com, “esta foi uma das melhores feiras dos últimos anos em negócios para as empresas. Em três dias nove empresas expositoras conseguiram fechar negócios para exportação nos próximos 12 meses e realizaram mais de uma centena de novos contatos cada. Açúcar, erva mate e mel, tiveram grande interesse das distribuidoras europeias. Os cosméticos da Surya Brasil tiveram expressivo interesse das tradicionais marcas e abriu mercados de spas e distribuidoras do leste europeu e países asiáticos”. O Projeto Organics Brasil calculou que neste feira, o Brasil faturou 2 bilhões 650 mil reais, 32,5% superior a 2014. Para os Estados Unidos, maior mercado mundial de orgânicos, os principais produtos exportados foram de matérias-primas semi-processadas, como: açúcar, óleos de dendê e outros óleos vegetais, castanha de caju, sucos de frutas (açaí), mel, erva-mate, outras frutas tropicais congeladas, café, preparações capilares, própolis e cachaça.
Mas a Biofach não é só negócios e contatos. Também ocorreram seminários, palestras, mesas redondas, reflexões e discussões relacionados não somente com produção e comercialização mas também sobre estratégias para o desenvolvimento do setor e rumos do movimento orgânico mundial. A IFOAM – Federação Internacional de movimentos de Agricultura Orgânica, entidade que organiza o Congresso Mundial de Agricultura Orgânica a cada três anos, lançou na feira o Programa ORGANICS 3.0 – a terceira fase do movimento orgânico mundial, uma proposta para responder os inúmeros desafios e oportunidades do mundo atual. O documento encontra-se em consulta até final de fevereiro.
Por sua vez, o FiBL – Instituto Suíço de Pesquisas em Agricultura Orgânica apresentou seu tradicional Relatório anual das estatísticas do setor sobre produção e mercado. Os dados publicados agora foram coletados em 2014, em 172 países de todos os continentes. Conforme a publicação a área com agricultura orgânica em 15 anos cresceu mais de 300%. Atualmente a área é de 47 milhões de hectares (dados 2014). A Austrália, com mais de 17 milhões, e Argentina com outros 3 milhões, são os dois países líderes em área certificada com grande participação na pecuária extensiva. O Brasil está no 12º lugar. Quanto ao mercado, estima-se que o valor global atingiu 60 bilhões de Euros. Os EUA tem o maior mercado com 27.1 bilhões de Euros, seguidos pela Alemanha, França e China.
Os alimentos de origem animal mostraram pujança e qualidade. É uma área que vem aumentado consideravelmente. Carne, leite, ovos, mel e derivados. In natura e processados. Provenientes de diversas espécies: bovinos, ovinos, caprinos, suínos, equinos, galinhas, frangos, perus, patos e marrecos, além de peixes e pescados. Consumidores conscientes exigem qualidade dos alimentos, bem estar animal e sustentabilidade. Apesar das críticas generalizadas aos animais, estudos científicos recentes comprovam que animais criados em sistemas extensivos são benéficos ao ambiente não somente pelo aporte de nutrientes ao solo como também pela captura de carbono na fotossíntese das pastagens. Pesquisas também têm comprovado que carne e leite orgânicos são mais nutritivos que os convencionais e muito importantes principalmente para o desenvolvimento físico e mental das crianças.
Este ano observou-se na feira uma presença considerável de alimentos processados e também de embalagens recicláveis mostrando a industrialização dos alimentos orgânicos. Aumentando assim a diversidade, a disponibilidade, a conservação e a especialização. As embalagens e apresentação costumam ter mais elegância que a dos concorrentes convencionais. Ao lado dos tradicionais e valorizados alimentos artesanais, surgem os processados e produzidos em grande escala. Sucos, cervejas, vinhos, espumantes, sorvetes, geleias, sopas, papinhas, bolachas, chips, vegetais semi-procesados, chás, suplementos, dentre outros. Sem falar linha dos produtos não comestíveis como roupas, embalagens e cosméticos, estes últimos com enorme avanço na Alemanha.
Voltamos para casa felizes e otimistas. Afinal todos merecemos um prato e um planeta mais saudável!
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Angela Escosteguy é médica veterinária, Presidente do Instituto do Bem Estar (IBEM) e da Comissão de Pecuária Orgânica da Sociedade Brasileira de Medicina Veterinária.